Ruas do Rio ganham cores da Copa e tradição une gerações na torcida pelo hexa

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Moradores transformam comunidades e bairros da capital fluminense em verdadeiros cartões-postais para celebrar a Copa do Mundo de 2026

A poucos meses da Copa do Mundo de 2026, o clima de expectativa já tomou conta de diversas regiões do Rio de Janeiro. Em bairros da zona norte, do centro e em comunidades históricas da cidade, moradores se mobilizam para manter viva uma das tradições mais marcantes do futebol brasileiro: a decoração das ruas para apoiar a Seleção Brasileira.

Bandeirinhas verde-amarelas, pinturas temáticas, grafites, escadarias coloridas e desenhos que fazem referência ao futebol e à cultura nacional estão transformando ruas e vielas em verdadeiras galerias a céu aberto. Mais do que ornamentação, a iniciativa representa um movimento de integração comunitária, preservação cultural e transmissão de memórias entre diferentes gerações.

Mesmo sem conquistar um título mundial desde 2002, o Brasil segue sendo o maior vencedor da história da Copa do Mundo, com cinco conquistas. O longo jejum, no entanto, não diminuiu a paixão dos torcedores, que voltam a enfeitar suas ruas em busca de repetir o ambiente festivo que marcou gerações anteriores.

Arte e pertencimento no Morro do Pinto

No bairro de Santo Cristo, na região central da capital fluminense, moradores da Rua Capiberibe decidiram resgatar uma tradição que marcou a infância de muitos moradores da comunidade do Morro do Pinto.

A iniciativa foi coordenada por Isabel Boechat, vice-presidente do Centro Cultural Capiberibe 27, que acompanhou de perto toda a mobilização popular.

Segundo ela, a transformação da rua aconteceu de forma espontânea, com a participação crescente de moradores de diferentes idades.

“A rua foi entrando no clima aos poucos: moradores ajudando, crianças pintando, famílias acompanhando, gente chegando para ajudar, colaborar de alguma forma”, relata.

O que começou como uma simples pintura acabou se tornando um grande encontro comunitário.

“Hoje a minha avaliação da ação é que não foi uma ação feita ‘para’ a comunidade, foi feita com a comunidade. Em algum momento, deixou de ser só uma pintura e virou encontro, convivência, pertencimento”, destacou.

O movimento também atraiu pessoas de comunidades vizinhas, como o Morro da Providência, além de moradores de outras áreas do Santo Cristo e da região portuária.

Todo o trabalho foi realizado graças à colaboração coletiva. Moradores, comerciantes locais, amigos e parceiros do Centro Cultural Capiberibe 27 contribuíram com materiais, alimentação e apoio logístico para que o projeto fosse concluído.

Durante os dias de pintura, as crianças receberam lanches, picolés e almoço, transformando a atividade em um verdadeiro evento comunitário.

Jovens mantêm viva a tradição no Morro do Turano

O exemplo do Morro do Pinto acabou inspirando outras comunidades da cidade.

No Morro do Turano, localizado no Rio Comprido, zona norte do Rio, o estudante universitário Silvio Rosa, de 21 anos, decidiu liderar uma iniciativa semelhante.

Mesmo sem nunca ter participado da decoração de ruas para uma Copa do Mundo, ele enxergou na ação uma oportunidade de aproximar crianças e moradores da comunidade por meio da arte.

A ideia ganhou ainda mais força quando Silvio descobriu o concurso “Meu Beco na Copa”, promovido pelo projeto Favela Radical. A partir daí, decidiu inscrever a Alameda Manoel Costa na competição.

Segundo ele, o entusiasmo das crianças foi determinante para o sucesso da iniciativa.

“Foram mais as crianças mesmo, elas, sim, aderiram a todo momento, sempre perguntando pra gente quando ia ser a pintura e tudo mais, sempre ansiosas. E ajudaram muito, de verdade mesmo”, afirmou.

O projeto foi desenvolvido com apoio da namorada, Taíssa Brito, da artista Anunki e de diversos moradores da comunidade.

Ao final dos trabalhos, não apenas a Alameda Manoel Costa estava decorada. Diversas outras áreas do Morro do Turano também ganharam pinturas e elementos temáticos ligados à Copa do Mundo.

Para Silvio, a iniciativa vai além do futebol.

“Eu vejo como muito positivo, principalmente nesse momento que a gente está vivendo no país. Resgatar tudo isso, poder fazer parte disso, resgatar esses símbolos para nós, para o povo brasileiro, de fato é muito interessante. E viver isso junto com as crianças é mais interessante ainda”, declarou.

Concurso incentiva criatividade dos moradores

Neste ano, a Prefeitura do Rio de Janeiro decidiu incentivar ainda mais a tradição ao criar o concurso “Acreditar é uma Arte – O Rio nas Cores do Hexa”.

A iniciativa prevê premiações para as ruas mais bem decoradas da cidade. O primeiro colocado receberá R$ 50 mil, enquanto o segundo e o terceiro lugares serão contemplados com R$ 30 mil e R$ 20 mil, respectivamente.

A proposta busca estimular a participação popular, valorizar manifestações culturais e fortalecer o sentimento coletivo em torno da Copa do Mundo.

Além de incentivar a criatividade, o concurso também ajuda a movimentar a economia local, envolvendo comerciantes, artistas, moradores e instituições comunitárias.

Uma tradição que atravessa décadas em Vila Isabel

Entre os candidatos ao prêmio está uma das ruas mais famosas do Rio quando o assunto é decoração para a Copa do Mundo.

Localizada em Vila Isabel, na zona norte da cidade, a Rua Pereira Nunes se tornou referência nacional e internacional por suas ornamentações temáticas.

A tradição começou em 1978 e nunca mais foi interrompida.

Há mais de quatro décadas, moradores se organizam para transformar a via em um espetáculo visual durante os mundiais.

Um dos principais responsáveis pela iniciativa é Celso Mendes, que lidera a chamada Galera da Pereira Nunes desde 1994.

Segundo ele, o planejamento para cada Copa começa logo após o encerramento da edição anterior.

“Nós planejamos a próxima Copa do Mundo assim que acaba. São quatro anos de planejamento. E a relevância para o nosso bairro é enorme. Eles esperam a gente planejar essa ornamentação, ficam nos cobrando. Então, é algo muito importante, não só para o nosso bairro, mas para o país”, explica.

A fama da rua ultrapassou as fronteiras brasileiras e já rendeu reportagens em veículos internacionais.

Mas o trabalho da comunidade vai muito além da decoração.

Além das tradicionais bandeirinhas e pinturas, os moradores promovem eventos culturais, transmissões coletivas dos jogos e apresentações musicais durante o período do torneio.

A Rua Pereira Nunes já conquistou quatro títulos em concursos de ornamentação e agora busca o quinto troféu, em uma coincidência que remete ao número de títulos mundiais conquistados pela Seleção Brasileira.

Tradição que resiste ao tempo

Embora os hábitos de consumo e entretenimento tenham mudado ao longo das últimas décadas, a tradição de decorar as ruas para a Copa continua sendo uma das manifestações culturais mais simbólicas do Brasil.

Mais do que demonstrar apoio à Seleção Brasileira, essas iniciativas fortalecem laços comunitários, incentivam a participação das crianças, movimentam a economia local e preservam memórias afetivas que atravessam gerações.

No Rio de Janeiro, as cores verde e amarela já começaram a tomar conta das ruas. E, independentemente do resultado dentro de campo, a festa organizada pelos moradores mostra que a Copa do Mundo continua sendo um dos eventos mais capazes de unir comunidades e despertar o sentimento de pertencimento entre os brasileiros.

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