O espetáculo complexo b, protagonizado por Adriana Calcanhotto, José Miguel Wisnik e João Camarero, estreia no Brasil nos dias 28 de fevereiro e 1º de março, em Porto Alegre, durante o epílogo do 32º Porto Alegre em Cena – Festival Internacional de Artes Cênicas. As apresentações acontecem no Teatro Simões Lopes Neto, no complexo Multipalco Eva Sopher, reunindo três dos mais respeitados nomes da música e do pensamento artístico brasileiro em uma aula-show que atravessa canção, literatura e reflexão cultural.
A estreia brasileira marca o encerramento da 32ª edição do festival, tradição que reforça a vocação do Porto Alegre em Cena de apostar em atrações especiais para abrir e fechar sua programação. Concebido originalmente para a Exposição Complexo Brasil, apresentada em novembro do ano passado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, complexo b chega à capital gaúcha carregando o simbolismo de um espetáculo que nasce do diálogo entre Brasil e Portugal e retorna ao país como síntese poética e sonora dessa travessia.
Segundo Luciano Alabarse, coordenador geral do Porto Alegre em Cena, a escolha do espetáculo para o encerramento do festival é motivo de celebração pessoal e artística. “Quase uma tradição na história do Em Cena, atrações de lançamento e encerramento do festival fazem parte da programação. Este ano, não é diferente. Encerraremos a 32ª edição, com uma atração absolutamente especial. Em sua última apresentação em Porto Alegre, Wisnik comentou a apresentação em Lisboa, reunindo um time fantástico: ele, Adriana Calcanhotto e João Camarero, nome de ponta da nossa música. complexo b, a aula-show dos três bambas, fará a estreia brasileira aqui, o que me enche de alegria real. Eu não vou perder por nada”, afirma.
Um espetáculo concebido entre Brasil e Portugal
Criado especialmente para a Exposição Complexo Brasil, complexo b nasce como uma conversa expandida entre música, poesia e pensamento crítico. No palco, Adriana Calcanhotto, José Miguel Wisnik e João Camarero constroem uma performance que alterna diálogos, comentários e canções, costurando referências da cultura brasileira e lusitana em suas múltiplas camadas de sentido.
A proposta não se limita a um concerto musical tradicional. O espetáculo assume a forma de um ensaio vivo, no qual os artistas refletem sobre identidade, linguagem, memória e criação. Ao longo da apresentação, emergem questões centrais da formação cultural brasileira, como a permeabilidade entre o erudito e o popular, o trânsito entre música e literatura e a constante reinvenção da tradição.
No roteiro, a poesia portuguesa dialoga diretamente com a canção brasileira, estabelecendo pontes que atravessam séculos e estilos. Camões, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Adília Lopes e Fiama Hasse Pais Brandão surgem lado a lado com nomes fundamentais da música popular brasileira, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Baden Powell.
A linguagem como paisagem sonora
Em Porto Alegre, o público encontrará um espetáculo que valoriza tanto a escuta quanto a reflexão. As falas dos artistas ajudam a contextualizar as canções e os poemas, revelando bastidores criativos, afinidades estéticas e tensões históricas que atravessam a língua portuguesa em suas diferentes manifestações.
O encontro entre Calcanhotto, Wisnik e Camarero resulta em uma experiência que vai além da soma de talentos individuais. Juntos, eles constroem uma paisagem sonora marcada pela delicadeza, pela densidade intelectual e pela sensibilidade poética. Trata-se de um ensaio multidimensional em que memória e invenção se entrelaçam, revelando a beleza e as contradições da língua poética brasileira, formada por ruínas e reinvenções, mares e morros, sagrado e profano.
A performance destaca, ainda, a singularidade de cada trajetória artística. Adriana Calcanhotto imprime sua relação profunda com a poesia e a canção autoral; José Miguel Wisnik articula música, filosofia e literatura com a autoridade de quem transita entre a criação e o pensamento crítico; João Camarero acrescenta ao espetáculo a sofisticação de um violão que dialoga com tradição e contemporaneidade.
Repertório que atravessa gerações
O repertório de complexo b é extenso e cuidadosamente elaborado, combinando obras consagradas da música brasileira, poemas musicados e composições autorais. Entre os destaques estão encontros inusitados, como o Prelúdio opus n. 4, de Chopin, com Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além de diálogos entre Guimarães Rosa e Milton Nascimento, Camões e Caetano Veloso, Gregório de Matos e Adriana Calcanhotto.
Canções como Chega de saudade, Canto de Ossanha, Berimbau, Tarde em Itapuã e Terra Estrangeira convivem com poemas emblemáticos da literatura brasileira e portuguesa, reafirmando o caráter híbrido e investigativo do espetáculo. O resultado é uma narrativa musical que convida o público a perceber a canção como espaço de pensamento e a poesia como matéria sonora.
Retomada do projeto Gaúchos em Cena
Além da estreia de complexo b, o epílogo do 32º Porto Alegre em Cena também marca a retomada do projeto Gaúchos em Cena, iniciativa dedicada à preservação da memória artística do Rio Grande do Sul. Nesta edição, o projeto presta homenagem à coreógrafa e bailarina Carlota Albuquerque, referência incontornável da dança contemporânea brasileira.
Fundadora do Terpsí Teatro de Dança, Carlota construiu uma trajetória marcada pela pesquisa do corpo como campo poético, político e sensível. Sua obra atravessa linguagens, dialoga com teatro, música e artes visuais e formou gerações de artistas, consolidando-se como um dos pilares da dança contemporânea no Estado e no país.
A biografia desta edição será escrita pela atriz e gestora cultural Gabriela Munhoz e pela diretora, atriz e pesquisadora Joana de Albuquerque. O trabalho propõe uma abordagem sensível, que vai além do registro factual para construir uma memória viva, capaz de reconhecer a dimensão criadora, formadora e transformadora da artista.
Emocionada, Carlota Albuquerque celebra a homenagem. “Jamais imaginei ter minha trajetória sendo homenageada assim, de forma tão especial, no Porto Alegre em Cena. Quando recebi o convite da minha querida Letícia Vieira, paralisei, de verdade! Era como se o tempo tivesse dado uma pausa. Ela me olhava e eu disse ‘preciso pensar’, mas não era sobre aceitar ou negar, eu precisava entender este vulcão de emoção que estava ali para explodir! Que presente, que felicidade para uma artista estar em cena num livro! Isto é pra sempre”, declara.
Reside Alegre chega ao bairro Cidade Baixa
Outra novidade do festival é a continuidade do projeto Reside Alegre, que entra em nova fase de residência artística no mês de maio. Após narrar e dramatizar histórias reais de moradores do Centro Histórico, o projeto volta seu olhar para o bairro Cidade Baixa, envolvendo artistas e comunidade em processos de escuta, criação e convivência.
A equipe formada por Monina Bonelli, Paula de Renor, Celso Curi e Wesley Kawaai conduzirá mediações e conversas com moradores e vizinhos, além de iniciar a primeira residência com artistas locais para ações da próxima edição do festival. A diretora e iluminadora Nara Maia atua como vizinha embaixadora do projeto, articulando as ações em parceria com a diretora e produtora Sandra Possani.
Um festival que atravessa gerações
Criado em 1994, o Porto Alegre em Cena consolidou-se ao longo de mais de três décadas como uma das principais plataformas das artes cênicas na América Latina. Mais do que um festival, tornou-se um espaço de encontro entre artistas e público, responsável por trazer à cidade nomes consagrados da cena nacional e internacional.
A memória afetiva do público se confunde com a história do evento, marcada por espetáculos transformadores, filas para retirada de ingressos e experiências compartilhadas entre diferentes gerações. Ao fomentar o pensamento crítico e a troca de saberes, o festival reafirma sua importância para a vitalidade cultural de Porto Alegre e do país.
Serviço
32º Porto Alegre em Cena – O Epílogo
Complexo b com Adriana Calcanhotto, José Miguel Wisnik e João Camarero
Dias 28 de fevereiro, às 20h, e 1º de março, às 18h
Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco Eva Sopher
Rua Riachuelo, 1089 – Centro Histórico, Porto Alegre
Ingressos:
Dia 28/02: https://theatrosaopedro.eleventickets.com/#!/apresentacao/637a7542287a41083b89ebd57f405bbb735cb5c8
Dia 01/03: https://theatrosaopedro.eleventickets.com/#!/apresentacao/a4ad582f282474b540fb9415ed20067718cbfd46

