Recife homenageia Chico Science nos 60 anos do artista com mural gigante e roteiro pelo Manguebeat

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O Recife vai celebrar os 60 anos de Chico Science com duas ações que unem memória, arte urbana e turismo cultural. Na próxima terça-feira (22), a Prefeitura do Recife promove a instalação de um mega mural dedicado ao artista no Bairro do Recife e realiza o passeio turístico gratuito ‘Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar’, que percorre lugares ligados à trajetória do músico e à história do Manguebeat. As iniciativas são promovidas pela Secretaria de Turismo e Lazer do Recife (SETUR-L) e pelo Gabinete de Inovação Urbana (GIURB).

A programação reforça a presença de Chico Science na paisagem e na memória da capital pernambucana e amplia o diálogo entre o patrimônio histórico do Recife, a cultura popular e o movimento musical que ajudou a projetar a cidade para além de Pernambuco. O mural será instalado na fachada do Motto by Hilton, na Rua da Guia, enquanto o roteiro turístico terá saída da Praça do Arsenal e passará por diferentes pontos do Centro do Recife relacionados ao artista e à cena cultural do Manguebeat.

A homenagem acontece em um ano simbólico para a trajetória de Chico Science. O músico completaria 60 anos em 2026, e a programação organizada pela Prefeitura procura transformar a data em uma oportunidade para revisitar não apenas sua obra, mas também os espaços urbanos que ajudam a contar a história do movimento surgido no Recife.

Mural será instalado no Bairro do Recife

O mega mural dedicado a Chico Science integra o Edital de Megamurais – Recife Cidade da Música, iniciativa do Gabinete de Inovação Urbana que utiliza a arte urbana como instrumento de valorização cultural e que está relacionada ao título concedido pela UNESCO à capital pernambucana.

A obra foi desenvolvida pelo artista Arem e tem como inspiração uma fotografia icônica de Chico Science registrada pelo fotógrafo Fred Jordão. A proposta foi aprovada pela família do músico e será executada na fachada do Motto by Hilton, localizado na Rua da Guia, 142, no Recife Antigo.

De acordo com as informações divulgadas pela Prefeitura, a entrega do projeto está prevista ainda para o segundo semestre de 2026. A iniciativa pretende destacar o legado do artista e a relação entre a música e a identidade cultural da cidade.

A escolha do Bairro do Recife para receber a obra também estabelece uma conexão direta com um dos principais territórios simbólicos do Manguebeat. A região reúne espaços que aparecem na trajetória cultural do movimento e que continuam sendo utilizados como referências para moradores, turistas e pesquisadores interessados na produção artística recifense.

Passeio percorre lugares ligados à trajetória de Chico

Além do mural, a programação contará com o roteiro turístico gratuito ‘Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar’. A atividade será realizada dentro do projeto Olha! Recife e terá início às 10h, com saída da Praça do Arsenal.

O passeio foi idealizado por Manu Rodrigues e utiliza o Manguebeat como fio condutor para estabelecer conexões entre música, patrimônio, cultura popular e memória. O percurso também aborda o universo afro do Centro do Recife e apresenta aos participantes espaços que ajudam a compreender a diversidade cultural que compõe a história da cidade.

Excepcionalmente para esse passeio, não será necessário realizar agendamento ou inscrição prévia.

Entre os pontos previstos no trajeto estão o Marco Zero, a Rua da Moeda, o Cais da Alfândega, o Pátio de São Pedro e o Mercado de São José.

Na Rua da Moeda, os participantes poderão conhecer a estátua de Chico Science, que integra o Circuito da Poesia. A escultura foi entregue em 2007 e é assinada pelo artista Demétrio Albuquerque. O local também é associado ao antigo bar Pina de Copacabana, citado no roteiro por sua relação com a história cultural do Recife.

O percurso segue pelo Cais da Alfândega, onde o caranguejo e a relação com o manguezal urbano são utilizados para estabelecer uma conexão com um dos principais símbolos do universo criado pelo Manguebeat.

No Pátio de São Pedro, a programação aborda o Memorial Chico Science e os movimentos culturais realizados no espaço. O passeio termina seu percurso previsto passando pelo Mercado de São José, onde a tradição dos instrumentos utilizados no maracatu ganha destaque.

Recife transforma memória do Manguebeat em roteiro cultural

A Secretaria de Turismo e Lazer do Recife mantém iniciativas voltadas à valorização do legado do Manguebeat como parte da oferta de turismo cultural da cidade. Entre essas ações está o Circuito Chico Science, também inserido no projeto Olha! Recife.

A proposta é apresentar aos participantes aspectos da trajetória do artista e sua relação com espaços emblemáticos da capital pernambucana. Os roteiros temáticos de música também integram essa estratégia e destacam a cena musical recifense, suas referências ao Manguebeat e a importância do movimento para a identidade cultural local.

O Manguebeat ultrapassou os limites da música e passou a dialogar com diferentes manifestações artísticas e culturais. A mistura de ritmos tradicionais, guitarras, elementos eletrônicos, cultura popular e referências contemporâneas tornou-se uma das marcas de um movimento que procurou representar um Recife conectado ao mundo sem abandonar suas raízes.

Essa combinação aparece também no roteiro turístico, que utiliza os espaços da cidade para mostrar como música, patrimônio, religiosidade, cultura afro-brasileira, maracatu e manifestações urbanas se relacionam.

Um mapa sentimental do Manguebeat no Recife

A programação também recupera uma série de locais que ajudam a formar um mapa cultural e sentimental do Manguebeat e da produção artística recifense.

No Marco Zero está a estátua de Naná Vasconcelos, músico recifense reconhecido internacionalmente por seu trabalho com a percussão. Segundo o material divulgado, Naná nasceu no Recife em 1944, recebeu oito vezes o título de maior autoridade em percussão pela revista americana Down Beat e conquistou oito prêmios Grammy. Durante 15 anos, participou da abertura do Carnaval do Recife no Marco Zero ao lado de um cortejo de nações de maracatu.

Outro ponto de destaque é o Parque 13 de Maio, onde está o mega mural ‘Naná Vasconcelos, Sinfonias e Batuques’, criado pela artista Micaela Almeida. A obra fica na fachada do Edifício Guiomar, em frente ao parque, e retrata o percussionista com seu berimbau.

Na Avenida Conde da Boa Vista, o público pode encontrar o mega mural ‘Meu Maracatu Pesa uma Tonelada’, criado pela artista pernambucana Ranne Skull. A obra está localizada na empena do Edifício Sion.

Ainda na região, no encontro da Avenida Conde da Boa Vista com a Rua do Hospício, está o mural ‘Recife Meu Amor’, de Marquinhos ATG, que celebra a diversidade de expressões artísticas e culturais presentes na cidade.

Na Rua do Riachuelo, o mega mural ‘Nossa Rainha já se Coroou’ presta homenagem às personagens negras do Maracatu Nação. A obra foi criada pelas muralistas e grafiteiras Nathê Ferreira e Fany Lima e está instalada no Edifício Almirante Barroso.

Na Rua Sete de Setembro, o mega mural ‘Silêncio e Contratempo’, do artista Raoni Assis, reúne elementos da cultura popular, folguedos e celebrações. A obra está localizada no Edifício Barreiros, na Boa Vista.

Já na Rua da Saudade, o mural ‘Ritmo e Poesia’, criado pelas artistas Tab e Bubu junto à crew PixeGirls, homenageia a rapper Bione. A obra busca levar a cultura da periferia para o centro urbano e destacar a participação das mulheres no movimento Hip Hop, que mantém diálogos com referências do Manguebeat.

Caranguejos também fazem parte da paisagem

Os símbolos associados ao universo do Manguebeat também aparecem em diferentes pontos da cidade.

Na Rua da Aurora está a escultura ‘Carne da Minha Perna’, um grande caranguejo de metal instalado no local desde 2004. A obra é assinada pelos artistas Augusto Ferrer, Edy Polo, Jorge Alberto e Lúcia Padilha Cardoso.

No Cais da Alfândega, outra escultura de um caranguejo gigante passou por uma intervenção do coletivo Vacilante e ganhou moradia permanente às margens do Rio Capibaribe em 2022.

A presença desses elementos na paisagem urbana ajuda a reforçar uma das imagens mais associadas à estética e ao discurso do Manguebeat: a ligação entre o Recife, seus manguezais, seus rios e a produção cultural desenvolvida na cidade.

Memorial preserva objetos e imagens de Chico Science

No Pátio de São Pedro, o Memorial Chico Science é outro ponto importante para quem deseja conhecer a trajetória do músico. O espaço é formado por três salas dedicadas à história do artista e reúne informações sobre suas referências culturais.

Entre as influências mencionadas estão nomes de diferentes universos musicais, como James Brown, Nick Drake e Mestre Salustiano.

O acervo também inclui material audiovisual produzido enquanto Chico Science estava vivo. A videoteca reúne clipes, reportagens e imagens de shows, permitindo acompanhar diferentes momentos da trajetória do artista.

O Memorial Chico Science funciona no Pátio de São Pedro, Casa 21, no Bairro de São José, no Recife. O horário informado no material é de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.

Colecionador reúne raridades da obra do artista

A relação entre memória e preservação também aparece na trajetória de Ed Ruas, secretário do Gabinete de Inovação Urbana do Recife, órgão responsável pela iniciativa do mega mural.

Além da atuação na gestão pública, Ed Ruas mantém uma coleção de materiais relacionados à obra de Chico Science e à música pernambucana. Segundo o material, ele recebeu da própria família do artista o título afetivo de maior colecionador analógico sobre a obra de Chico Science.

“Sou fã de Chico e colecionador de vinis, em especial de música pernambucana. No meu acervo tenho raridades como as versões do single A Cidade em vinil, K7 e CD, uma cópia de 1996 do Afrociberdelia em vinil (quando praticamente não se produzia mais, apenas em CD). Tenho um Cedê-Rom do Afrociberdelia que só foi enviado para as redações com fotos, releases e pequenos vídeos… Além de cds e vinis que têm versões cantadas por ele e pela banda”, afirma.

O acervo particular se soma às iniciativas públicas de preservação da memória do artista e do movimento que marcou a cultura recifense a partir da década de 1990.

Manguebeat completa 35 anos de trajetória

O ano de 2026 também marca 35 anos do período considerado embrionário do Manguebeat. Segundo o material, 1991 é apontado como o ano em que duas bandas fundamentais da cena recifense começaram a se aproximar: a Loustal, liderada por Chico Science, e a Mundo Livre S/A, liderada por Fred Zero Quatro.

A aproximação entre diferentes referências musicais e culturais contribuiu para a construção do conceito de ‘mangue’, que se tornaria uma das bases conceituais do movimento.

Anos depois, a produção musical associada ao Manguebeat ganharia repercussão nacional e internacional. Em 1996, a Nação Zumbi lançou o álbum ‘Afrociberdelia’, considerado no material um marco do auge criativo do movimento.

O disco aprofundou a utilização de elementos eletrônicos e samples e trouxe uma nova leitura de ‘Maracatu Atômico’. Naquele período, o grupo também realizou apresentações na Europa e nos Estados Unidos.

Uma história que continua presente na cidade

A homenagem aos 60 anos de Chico Science não se limita à celebração de uma data. A programação apresentada pela Prefeitura mostra como a memória do artista continua incorporada ao espaço urbano do Recife.

Está na estátua da Rua da Moeda, no Memorial Chico Science, nas esculturas de caranguejos, nos murais espalhados pela cidade e nos roteiros que conectam música, patrimônio e cultura popular.

Ao reunir essas referências em uma programação que envolve turismo e arte urbana, o Recife transforma parte de sua própria história cultural em experiência para moradores e visitantes.

A frase que dá nome ao passeio turístico, ‘Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar’, sintetiza uma das ideias mais conhecidas associadas ao legado de Chico Science. Três décadas depois do surgimento do Manguebeat, a obra do artista continua sendo revisitada por diferentes gerações e permanece relacionada à imagem de um Recife que encontrou na mistura entre tradição e inovação uma maneira própria de se apresentar ao mundo.

Para quem quiser participar do roteiro de terça-feira (22), a saída será às 10h, na Praça do Arsenal. A participação será gratuita e, excepcionalmente nesta edição, não será necessário realizar inscrição ou agendamento..

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